O jornalismo à procura de Diana

No Jornal das 8 da TVI, José Alberto Carvalho explicou esta noite, apoiado numa peça que desmonta a falsa procura de diana, que, não obstante o logro, “a TVI não desiste de procurar Dianas e Ricardos”, porque “há ainda sentimentos bonitos que merecem a atenção dos jornalistas”. Romantismos e boas intenções à parte, a verdade é que a peça da TVI de 26 de Setembro (na imprensa o Metro também foi atrás da “história”) redundou numa total falta de verificação dos factos, na exacta medida em que caucionou um golpe publicitário duma marca de perfumes. Não é para isso que o jornalismo serve.

ADENDA: Ver peça e nota editorial do Jornal da 8 da TVI de 03/10 aqui, aos 12m10s.

 

Racionamento ético de medicamentos?!

A notícia Antena 1 desta manhã põe a nu uma concepção da saúde e dos direitos à saúde e à vida que me ofendem enquanto cidadã. Um parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, solicitado pelo ministro da Saúde, e a que a Antena 1 teve acesso (ainda não disponibilizado), dá luz verde ao “racionamento” de medicamentos a alguns doentes.

Afirma Miguel Oliveira da Silva, presidente do CNECV:

A nossa resposta [relativamente ao racionamento de medicamentos] foi claramente sim . Não só é legítimo como mais do que isso até é desejável. Nós vivemos numa sociedade em que, independentemente das restrições orçamentais, não é possível todos terem acesso a tudo sempre, em termos de cuidados de saúde, neste caso cuidados de saúde diferenciados nas áreas que situam medicamentos oncológicos, ou retrovirais, ou os chamados medicamentos biológicos para a artrite reumatóide

E prossegue o presidente do CNECV:

Será que mais dois meses de vida, independentemente dessa qualidade de vida, justificam uma terapêutica de 50 000 euros, ou de 100 000 euros, ou 200 000 euros?

Mesmo que não conheçamos ainda o texto do parecer, qualquer intenção, porventura sensata e racional, de fomentar uma melhor gestão da saúde cai por terra com estas afirmações. Porque o que fica explícito nas palavras de Miguel Oliveira da Silva é uma engenharia do sistema de saúde que estabelece uma separação entre doentes “bons” e doentes “maus”, entre quem justifica ou não o dispêndio de dinheiro do Estado, que somos nós, com os doentes que somos ou poderemos vir a ser.

E mesmo que o tal parecer preveja um debate entre todos os implicados  – doentes, famílias e médicos -, como garante o presidente deste órgão consultivo, o teor destas declarações compromete qualquer diálogo. O que se prolonga no ouvido é a sentença fria e desumana de que, repetimos, “não é possível todos terem acesso a tudo sempre” em matéria de saúde. E na palavra-chave utilizada – “racionamento” -, falta em ética o que se acrescenta em desigualdade e descriminação.

A entrevista conduzida pelo jornalista Jorge Correia na íntegra aqui.

ADENDA: o texto integral do parecer aqui.